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Ecofeminismo(s): gênero e meio ambiente sob uma mesma perspectiva

Não existe justiça social sem justiça ambiental!

O que é ecofeminismo?


Por Raquel Piedade


É importante ressaltar que práticas ecofeministas existem desde sempre através das mulheres dos povos originários como indígenas e quilombolas, portanto não é um objetivo deste texto indicar a origem exata de tais práticas, mas sim falar do ecofeminismo tanto no contexto teórico quanto como movimento social e político. O termo “ecofeminismo” foi cunhado em 1974 por Françoise d’Eaubonne em seu livro “Le Féminisme ou la Mort” (“O Feminismo ou a Morte”, em tradução livre) e se tornou popular no contexto dos muitos protestos contra a destruição ambiental que ocorreram no final dos anos 1970.


O ecofeminismo acredita que tanto a degradação do meio ambiente como a subordinação feminina são frutos do capitalismo, uma vez que o sistema é baseado na apropriação do patriarcado[1] (atrelado à exploração e a outras opressões) e em uma visão de mundo mecanicista cuja lógica de desenvolvimento prevê a exploração irracional dos recursos naturais, devido à uma cultura de dominação e violência oriundas de valores patriarcais.


O ecofeminismo aponta que embora, ao longo da história, as mulheres estejam vinculadas à proteção da natureza, em função da desvantagem feminina na sociedade capitalista e do processo de feminização da pobreza[2], são justamente as mulheres que mais sofrem com a exposição aos ricos e aos impactos ambientais.


Também entende-se que o ecofeminismo não é propriamente uma vertente, mas sim uma epistemologia (uma perspectiva) dentro da vertente marxista ou socialista. O ecofeminismo, assim como o movimento feminista de um modo geral, é muito plural, justamente porque abrange a vivência e a diversidade de experiências das mulheres de acordo com seus lugares específicos, por isso fala-se de ecofeminismos.


Princípios ecofeministas


Como mencionado anteriormente, na perspectiva ecofeminista existe um paralelismo entre a opressão de mulheres e da natureza, dentre outros aspectos como:

  • Valorização do papel das mulheres na medida em que se aproxima o feminino da natureza;

  • Respeito à ciclicidade: A natureza, assim como o nosso corpo, é cíclica. Por isso, no ecofeminismo preza-se pela soberania e segurança alimentar, agroecologia, redução da geração de resíduos, descarte ambientalmente correto, etc.;

  • Crítica à tecnologia, ao desenvolvimento e à acumulação de capital: A serviço de quem está a tecnologia e atual lógica de desenvolvimento?

  • Resgate de uma ética ambiental e de saberes tradicionais: Os saberes matriarcais tradicionais foram invisibilizados ao longo do tempo.

  • Conexão entre natureza e espiritualidade - Algo diretamente relacionado à ética sensível ao cuidado. As espiritualidades ecofeministas não estão imediatamente vinculadas à religião ou teologia, mas não é possível ignorar que muitas mulheres incorporam visões espiritualistas de mundo, o que contribuiu para a construção de simbolismos e valores que influenciaram os movimentos ambientalistas e pacifistas, unificados no ecofeminismo, gerando impactos políticos e socioeconômicos.

[1] Sistema de dominação dos homens sobre as mulheres que se apoia nas diferenças socialmente construídas, sendo a base para outras estruturas de dominação tais como raça, etnia, orientação sexual, etc. Para saber mais: DELPHY, Christine. Patriarcado (teorias do). In: HIRATA, H. et al (org.). Dicionário Crítico do Feminismo. Editora UNESP : São Paulo, 2009, p. 173–178. [2] ANDRADE, Camila Damasceno de. Justiça Ecológica e Subalternização Feminina. Rev. Direito Práx., Rio de Janeiro , v. 11, n. 2, p. 808-830, Apr. 2020 . Epub June 08, 2020.


Sugestões de livros


O Feminismo ou a morte (Le Féminisme ou la Mort)

Autora: Françoise d’Eaubonne

Esse livro é conhecido como o primeiro manifesto ecofeminista.

Nesta obra, Françoise d'Eaubonne aponta que o capitalismo patriarcal é simultaneamente responsável pela opressão das mulheres e pela exploração do planeta. Dessa forma, a autora oferece novas perspectivas para o movimento feminista e a luta ambiental. Para prevenir o assassinato generalizado dos seres vivos, não há alternativa senão o ecofeminismo.


Primavera Silenciosa (Silent Spring)

Autora: Rachel Carson

Este não é propriamente um livro sobre ecofeminismo, mas sim o fruto da inquietude de Rachel Carson em prol da luta ambientalista. "Primavera silenciosa" desafiou um governo que permitia o uso de substâncias tóxicas no meio ambiente antes de saber as consequências a longo prazo. Por meio de uma linguagem simples e usando informações a respeito das radiações atômicas, Carson descreveu como os inseticidas alteravam os processos celulares das plantas, animais e seres humanos.



Ecofeminismo (Ecofeminism)

Autoras: Vandana Shiva e Maria Mies

O livro traz questões urgentes para as ecofeministas: Existe uma relação entre a opressão patriarcal e a destruição da natureza em nome do lucro e do progresso? Como as mulheres podem conter a violência inerente a esses processos? Devem buscar uma ligação entre o movimento de mulheres e outros movimentos sociais? Maria Mies e Vandana Shiva oferecem uma análise instigante dessas e de muitas outras questões, criticando as teorias econômicas prevalecentes, os conceitos convencionais da emancipação das mulheres, o mito de "recuperar o atraso" do desenvolvimento, os fundamentos filosóficos da ciência e tecnologia modernas e a omissão da ética ao discutir tantas questões, incluindo avanços na tecnologia reprodutiva e biotecnologia.


Teologia Ecofeminista

Autora: Ivone Gebara

O ecofeminismo apresenta a relação entre mulheres e a natureza. Seu desafio é captar como ambas estiveram, durante séculos, sob o domínio patriarcal masculino. A separação entre a natureza e o espírito científico (este considerado especialidade masculina) tornou-se uma chave interpretativa da civilização ocidental. Grupos humanos mais próximos do pólo natural foram classificados como primitivos, inferiores, o que justificava a dominação sobre eles. Esse quadro é pensado por Ivone Gebara no sentido de buscar novos referenciais teológicos mais inclusivos, capazes de se alargar para a realidade feminina e ecológica dentro de uma radical aspiração por justiça, liberdade e respeito à vida.


A política sexual da carne

Autora: Carol J. Adams

Esta obra relaciona o consumo de animais com a cultura machista. Unindo feminismo e vegetarianismo, Carol J. Adams traz argumentos sólidos e consistentes que demonstram a estreita ligação entre a dominância masculina – e a consequente cultura de violência contra a mulher – e o ato de comer carne. Assim, “A política sexual da carne'' é leitura obrigatória para refletir sobre as relações entre homens, mulheres e animais na luta por um mundo sem opressão.


Sensível ao Cuidado: uma perspectiva ética ecofeminista

Autora: Daniela Rosendo


Daniela Rosendo desdobra as pregas morais dessa lógica da dominação capitalista e patriarcal, investigando com rigor a argumentação de Karen J. Warren. Este livro introduz no Brasil a questão ética feminista sem dicotomizar os conceitos que lhe são fundamentais, sem separar os princípios que devem reger a ética destinada a ordenar as interações entre os homens e mulheres, daqueles que devem reger as interações entre os seres humanos com os ecossistemas naturais e com os indivíduos das demais espécies animais.


Guia Ecofeminista: mulheres, direito, ecologia

Autora: Vanessa Lemgruber

Guia Ecofeminista - Mulheres, Direito, Ecologia propõe um vasto panorama sobre obras literárias e acadêmicas, fazendo um trabalho arqueológico de sistematização do pensamento ecofeminista de forma inovadora. Na caótica realidade pós-moderna ambientalmente insustentável, a escrita impactante de Vanessa Lemgruber é o diferencial para despertar a curiosidade e aprofundamento no tema. Na constante busca do devir mulher em suas relações com a natureza, o caminho se revela na retomada da ancestralidade em prospecção do futuro. Coerente com a postura ética da autora, esta edição prioriza a escrita com substantivos e adjetivos na forma feminina.

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