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Jany Pons: uma cubana progressista falando sobre as manifestações em Cuba

Atualizado: Jul 22

Movimentando entrevista Jany Pons, uma artista cubana, morando no Rio de Janeiro que luta em defesa dos direitos humanos e por um planeta sustentável.


Movimentando:

Qual sua opinião sobre os embargos em Cuba?


Jany Pons:

Os embargos são muito ruins sim, são desumanos. Cuba não pode comprar nem vender de algumas empresas específicas que tenham produtos dos Estados Unidos e são muitas empresas. Então, se Cuba precisar de matéria prima para produzir qualquer coisa, não pode comprar. Na agricultura, por exemplo, a gente não pode comprar maquinários novos, então, a agricultura cubana fica muito precária. Para renovar essas máquinas, primeiro precisaríamos de dinheiro, o que Cuba não tem, pois além de ser um país pobre e ainda sofre com os embargos que impossibilita essa situação mudar. Mesmo se tivesse dinheiro ainda assim não poderia comprar em algumas empresas e isso atrasa muito. Só que tem muita coisa que Cuba pode comprar e não compra. Cuba não é proibida de comprar alimentos e medicamentos dos Estados Unidos, os embargos não incluem isso, existe um mal entendido por parte das pessoas de achar que os embargos limitam tudo, e não é bem assim. A maioria dos produtos alimentícios em Cuba vem dos Estados Unidos, quase todo frango cubano vem dos EUA, fica lá com as bandeirinhas americanas e tudo, se você for em uma farmácia cubana, vai ver que com os remédios é a mesma coisa, o embargo não inclui. Cuba pode e tem total liberdade para comprar remédio de qualquer lugar. A questão é que tem que comprar remédio à vista porque a dívida externa também é muito grande, então, não pode comprar nenhum remédio parcelado, tendo que comprar à vista, e como Cuba é pobre por conta dos embargos, acaba que não podendo comprar à vista, mas não é que não possa.

Movimentando:

Se a culpa não é dos embargos, então, de quem você acha que é a culpa pela revolta da população cubana?

Jany: Daí o que acontece, onde que entra a culpa do governo nisso tudo e porque nós cubanos não queremos que falem que essa culpa é só dos embargos. O governo cubano parece que não entende que o mundo inteiro é capitalista. A gente precisa da economia, precisamos estar abertos para comercializar com outros países e para outras empresas irem para Cuba, eles precisam abrir a economia interna do país, também porque as pessoas em Cuba tem que ter o direito de investir, de empreender e eu não estou romantizando o empreendedorismo, mas não dá pra colocar todo mundo trabalhando para o governo. Imagina no Brasil, todo mundo trabalhando pro Estado e ninguém pode abrir seu próprio negócio a não ser uma padaria ou uma loja. Se você quer abrir uma escolinha de idiomas, você não pode, e em Cuba existem muitas limitações. Apesar de que nos últimos dois, três anos pra cá, eles perceberam que isso estava atrasando a economia do país, e estão começando a permitir. Só que os outros sessenta anos atrás era proibido você empreender. Quando a revolução triunfou, eles tomaram, não foi só a propriedade privada e as grandes empresas como alguns militantes cegos por uma Cuba utópica, falam. Se você tivesse uma doceria, uma padaria ou mesmo um pequeno comércio eles tiravam de você. Então, por isso é que o povo cubano está revoltado, eles não jogam a culpa só nos embargos, porque o Governo também faz muita coisa para atrasar.

Movimentando:

Você acha possível uma intervenção dos EUA?

Jany: Cara, os Estados Unidos não vão intervir, eles não têm interesse em intervir, além de ser muito arriscado, ainda tem os tratados como o da antiga União Soviética que supostamente não só não valia mais, mas que alguns eles ainda cumprem e outros não. Então não se sabe se esse tratado deles não intervir, eles vão cumprir ou não, e se intervirem, tem o risco de acontecer algo pior, eles não vão provocar uma guerra com esses outros países. Pelo meu ponto de vista, eles não vão intervir de forma alguma. Porém, não dá pra dar 100% de garantia.

Movimentando:

Qual é a relação dos cubanos com os EUA? Jany: Existem milhões de cubanos nos Estados Unidos, coisa que o brasileiro não entende. O brasileiro acha que ver um cubano com a bandeira dos Estados Unidos é a mesma coisa que ver um bolsonarista com a bandeira dos Estados Unidos, mas é muito diferente. Para muitos cubanos, os EUA são como uma segunda casa, porque todo mundo tem um familiar por lá, então, a relação é muito próxima. São milhões de cubanos que moram nos EUA. A segunda maior comunidade hispânica dos EUA é formada por cubanos.

Movimentando:

Nas redes sociais têm muita gente mostrando depoimentos de cubanos favoráveis a uma intervenção dos EUA. Qual sua opinião sobre isso? Jany: Então, esses cubanos que moram nos EUA têm familiares que agora mesmo estão presos e que possivelmente não vão ver mais. Há jovens de vinte anos pegos nas manifestações que possivelmente vão ficar dez anos presos por conta de traição à pátria, parece absurdo, mas, vai acontecer. E essas pessoas pedem uma intervenção mais pelo desespero do que pela vontade em si. Agora, existe uma parte bem pequena que está pedindo porque acha que assim, Cuba vai virar um outro Estados Unidos, ou um novo Porto Rico. Mas isso é uma parcela muito pequena, a maioria dos cubanos que está na ilha e em toda parte do mundo são contra a intervenção. A intervenção também está sendo usada pelo governo cubano para criar esse medo e para fortalecer a narrativa contra os EUA e minimizar sua parte da culpa.

Movimentando:

Na sua opinião, os cubanos querem que Cuba se torne um país capitalista? Jany: A sociedade cubana como um todo não quer o capitalismo. Quando você conversa com as pessoas, isso fica claro, mesmo elas não sabendo usar toda essa dialética e vertentes de capitalismo, socialismo e comunismo, ou todos esses termos acadêmicos que as pessoas estudam aqui no Brasil. O cubano fala mais de forma informal mesmo. Se você perguntar, a maioria vai falar: "ah! nem capitalismo, nem socialismo, quer um pouquinho de cada um". Ou seja, de forma bem simplista, eles querem algo mais para uma social democracia do que para o capitalismo. E vou ser bem sincera, se o governo cubano não largar o osso, se não escutar a população, o ódio vai crescer e as pessoas cada vez mais vão se afastando dessa ideia e vão começar a querer o capitalismo mesmo. O governo cubano tem que ser esperto, tem que ouvir a população e fazer uma mudança boa para todo mundo.


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