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Poucos têm uma ficha corrida como a de Bolsonaro

Por: CartaCapital


Atravessamos uma semana muito difícil, em que não todas as coisas e “coisos” foram identificados pelos nomes correspondentes.


O genocida, assassino, escapou de ser assim classificado, pela CPI da Covid, o que só se pode explicar em função de afagos, pois, sem a menor sombra de dúvida, como a própria CPI concluiu, foram aqueles delitos de lesa-humanidade amplamente cometidos por ele e a entourage dele.


No entanto, coube-nos restar satisfeitos com a identificação dos numerosos crimes, covardemente perpetrados, destarte devidamente identificados e enumerados pela comissão. Poucos criminosos no Brasil e no mundo contam com ficha corrida semelhante.


Ao menos a sociedade obteve satisfações sobre quem cometeu os crimes que levaram à morte mais de 600 mil brasileiras e brasileiros. A verdade não os trará de volta, mas poderá impedir novos genocídios, como as apurações na Argentina, no Uruguai e no Chile sobre as atrocidades cometidas pelas ditaduras naqueles países. Ao contrário do que ocorreria no Brasil, essas comissões ensejaram, à época, as devidas punições e a não repetição daqueles crimes.


Comparando as reparações históricas, vale notar o que o monge beneditino Anselm Grün recordou, no volume Felicidade das pequenas coisas pequenas (Editora Vozes), em relação ao que dissera o filósofo Søren Kierkegaard: “A comparação é o fim da felicidade e o começo da insatisfação.”


De fato, estamos em outro patamar de desenvolvimento cultural, educacional e histórico se comparados a nossos vizinhos acima citados. Mas, juntos e graças a eles, um dia chegaremos à plena verdade, que nos libertará, como nas palavras proféticas do Cristo.


Com efeito, naquela pequena obra, Grün também nos chama atenção para uma interessante associação. Diz ele: “Na língua alemã, é nítida a relação entre as palavras ‘danken’ [‘agradecer’] e ‘denken’ [pensar’]. Agradecer [‘danken’] vem do pensar [‘denken’], porque quem pensa devidamente é também grato. A pessoa ingrata não pensa corretamente em sua vida.”


Isso explicaria o pensamento truncado do imperialismo e das oligarquias locais — civis e armadas — que levaram este País de volta ao mapa da fome e da miséria? De alguma forma, sim, haja vista a desindustrialização, o desastre ambiental e socioeconômico em que nos lançaram e no qual também perecerão, ainda que não o percebam imediatamente, os prepostos locais, cada vez mais dependentes do volátil mercado internacional.


Noutro diapasão, vimos Alec Baldwin, involuntariamente, disparar uma arma que não devia estar carregada (mas errônea e tragicamente estava) durante uma filmagem, atingindo mortalmente a diretora de fotografia Halyana Hutchins.


Embora o próprio pai da diretora tenha reconhecido que o ator não teve nenhuma culpa, devemos nos perguntar se as imagens de armas, no cinema e na televisão contribuem para a civilidade. Ou se caberia suprimi-las por completo das telas (algo como a Globo faz com as políticas públicas exitosas dos governos de Lula e Dilma, para exemplificar).


Mas, apesar de vocês, na bela letra de Chico Buarque, re-existimos; nos reinventamos; buscamos em nossos íntimos a força que ainda nos falta amadurecer como sociedade; vocês, opressores, passaram, mas nós, parafraseando o poeta gaúcho Mário Quintana, nós “passarinhos”.


Pois como nos recorda Grün, lembrando Karl Barth: “A alegria é a forma mais simples de gratidão.”


Tão próxima em sabedoria, nossa Clarice Lispector, em Aprendendo a viver (Editora Rocco), aduz: “…Só porque é difícil compreender e amar o que é espontâneo e franciscano. Entender o difícil não é vantagem, mas amar o que é fácil de amar é uma grande subida na escala humana.”


Amar até a distopia que vivemos, tendo esperança e certeza de que terminará, parafraseando o poeta Cazuza, que nos sugere, ao término de “um sonho ruim”, buscar quem amamos, reconfortando-nos do pesadelo.


Novamente Clarice, na crônica Medo da libertação, no volume antes citado, encoraja-nos: “Se eu me demorar demais olhando Paysage aux Oiseaux Jaunes (Paisagem com Pássaros Amarelos, de Klee), nunca mais poderei voltar atrás. Coragem e covardia são um jogo que joga a cada instante. Assusta a visão talvez irremediável e que talvez seja a da liberdade. O hábito que temos de olhar através das grades da prisão, o conforto que traz segurar com as duas mãos as barras frias de ferro. A covardia nos mata. Pois há aqueles para os quais a prisão é a segurança, as barras um apoio para as mãos. Então reconheço que conheço poucos homens livres… Les Oiseaux Jaunes não pede sequer que se o entenda: esse grau é ainda mais liberdade: não ter medo de não ser compreendido. Olhando a extrema beleza dos pássaros amarelos calculo o que seria se eu perdesse totalmente o medo. O conforto da prisão burguesa tantas vezes me bate no rosto. E, antes de aprender a ser livre, tudo eu aguentava – só para não ser livre.”


Pois como diziam os estudantes libertários de maio de 68, o único temor que devemos ter é perder as algemas que nos aprisionam…

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